quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Diário de Bordo

A chuva batia forte.
Sabe aqueles pingos com circunferência gigantesca que chegam a doer quando caem na gente?
Carros passavam e parece que de propósito os motoristas direcionavam o volante para as poças, com a real intenção de me ensopar com aquela água suja de lama. E daí que a roupa era branca?
Eu não ligava para a chuva, muito menos para a roupa. Só doeria se os motoristas fossem amigos meus, conhecidos de mim.
Sabe que dói quando usam nossas fraquezas contra nós mesmos, né?
Mas sempre aparecia um motorista desvairado.

O sol brilhava mais que tudo no dia seguinte.
Brilhava no horizonte e na alma, que se enchia de esperança com a visão bonita que me alegrava enquanto ser.
Conheci uma senhora tão simpática na rua!
"Tá indo estudar mocinha?".
"Sim e a senhora?".
"Eu tô indo pra minha casa, que é logo ali".
"Ah sim! Nossa, mas tá um calorão né?! Como é o nome da senhora?".
"Tá quente demais, minha filha! Meu nome é Ordália".
"Às vezes acho que vou derreter! Hahaha".
"Derrete não. Olha eu... Andando nesse solão só pra ver a cidade! Gente jovem aguenta melhor".
"Haha! Quanta vitalidade! Eu preciso virar aqui... Bom dia pra senhora!".
"Eu vou indo em frente. Bons estudos. Não deixa de estudar de jeito nenhum, viu?"

Depois de ter atravessado a rua, gritou pra mim de longe: "HOJE EU FAÇO 79 ANOS!". E sorriu, acenando um empolgado tchau.
Claro que voltei e dei um abraço apertado naquela senhora fofa, cheia de disposição.
"Muitas felicidades! Eu quero chegar à sua idade com essa força toda que a senhora tem aí dentro!"
Ela sorriu emocionada e disse: "Você tem um bom coração, menina..." Agradecendo os parabéns.

Segui naquele dia mais leve. Encantada com as simplicidades que ainda habituam meu redor.
Mas levei comigo um pensamento: "a senhora é que não sabe, como está cansado esse coração".

Em uma outra noite chovera de novo.
Chovera dentro de quem não queria mais saber dessas coisas de amar.
Pelo menos não por hora.

Pela manhã, ainda de tempo nublado, ocorreu-me o quanto eu havia caminhado.
A viagem já contabilizava na casa das milhas.
Percebi o quanto já enfrentei, o quanto já caí e levantei. Lembrei-me de Ordália. Vi que passaria ainda muitas vezes por isso.
Mas não seria mais uma decepção que me tiraria do foco. Até mesmo porque ainda faltava muito o que caminhar. Encontraria ainda muitas chuvas e muitas senhoras de manhãs ensolaradas.

Apesar dos pesares, percebia que estava cada vez me aproximando mais do meu destino: queria chegar dentro de mim.
















Ps.: O diálogo com Ordália, que nunca mais vi, é real.
Assim como a minha viagem.

domingo, 5 de dezembro de 2010

O que permanece

Sei que escrevo. E amo.
Mas o mais intrigante é o porquê de reler sempre o que escrevo.
Escrevo em folhas finais de caderno, escrevo nas beiradas das margens de livros, escrevo em paredes, escrevo no Word, no Blog e não, não escrevo a vida. A vida eu vivo. Porque, por mais que escrever seja uma grandiosidade, o que seria mais apaixonante que o ato de viver? Apenas aquilo que o transcende: o mistério, o amor.
Como as páginas de um livro, fixas e ao mesmo tempo tão manuseáveis, principalmente no movimento de passar e retornar, volto sempre por aqui e clico naquela coluna dos meses, logo ali à direita.
Leio, releio, relembro, concordo e discordo de mim mesma.
Eu leio para saber o que penso, ou pelo menos o que pensava no momento em que escrevi. E que nem sempre está de acordo com o que passei a pensar desde então.
Percebo enfim que o que permanece, representa o que por muitas vezes - quase sempre - é aquilo que não consigo descrever - e que não muda, por mais mutável que eu possa ser: minha essência.


Agradecimentos pela inspiração do dia ao queridíssimo mestre Fernando Sabino.