quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Nostalgia

Lembro que ficava observando ele, sentado na carteira que ficava do outro lado da sala. Era tão pequenininho quanto eu. Ai, lembro até hoje dos olhinhos esverdeados, colorindo meu sorrisinho bobo.
Quietinha, não abria a boca nem para tirar dúvida com a professora! E a vergonha? Vivia presa como o rabo de cavalo que as mães faziam nas meninas... Tão apertado que deixava todas japonesinhas. Eu era uma japonesinha. Mas sempre voltava para casa com o cabelo fuá, parecendo um leãozinho.
A hora do recreio era a libertação, né? Quando chegava em casa e tirava o uniforme, caía areia até da calcinha!
Andava com a Veri, que é minha amiga até hoje!
Ela sempre foi mais madura do que eu. Quase todo mundo era mais maduro do que eu.
Às vezes tenho a sensação de que ainda sou a Fernandinha, lá da Educação Infantil.
Eu era a segunda, quando formava a fila, porque incrivelmente tinha uma mais baixinha do que eu!
Quando ele chegava perto de mim, meu coração acelerava tanto e batia tão forte, que eu tinha medo de ele ouvir, das minhas amigas ouvirem, da minha professora ouvir e até da minha mãe, lá em casa, ouvir.
Ele nem sonhava que era o grande amor da minha vida! O homem com quem eu casaria e teria 2 filhos. Ele não sabia nem que o nosso casamento já estava marcado, para assim que terminássemos a Pré-Escola. Porque é claro, né! Criança pequena não pode casar... Tem que esperar chegar na 1ª série.
Sempre esperava a perua assistindo TV Colosso.
Eu gostava do motorista da perua! Tirando o fato de que ele tinha bafo e me chamava de Fernandinha. Amava que me chamassem de Fernandinha, mas ele não podia não! Porque ele tinha bafo, e eu entendia que assim ele estava estragando meu apelido com aquele bafão dele!
Um dia eu dei um selinho na boca de um menino da perua. Ele acordou no susto do estalinho! Era feio e chato. Mas eu queria beijar na boca de alguém... e poxa, ele estava ali, não estávamos fazendo nada...
Mas depois fiquei com remorso. Por dois motivos: 1- ele limpou a boca depois; 2- me senti como se tivesse traído meu futuro marido.
Eu ainda consigo sentir o cheiro gostoso da terra molhada. Pois sempre que eu chegava da escola, minha mãe estava aguando as lindas plantas que haviam no quintal. Aaaah, que saudade do meu pé de amora! Saudade até da "Ave Maria" que ela ouvia e cantava junto com o rádio, todos os dias às 18h. "Nanda, faz Em Nome do Pai", falava ela com aquela voz tranquilizante.
Vejo hoje ainda com muito carinho e admiração aquele que seria "o homem da minha vida". Ainda tenho contato com ele, contei essa história toda, rimos juntos, tivemos sim momentos especiais, anos depois. Mas aquela paixão foi se perdendo aos poucos. Jamais esquecerei o quanto me marcou.
Já amei alguns depois. E lembro-me de todos, não foram muitos. Foram intensos. Meses, anos amando alguém, até a paixão se perder e aparecer um outro, que despertaria tudo novamente em mim, arrancando lá das profundezas o sorriso mais sincero. Na verdade eu acredito que amor não morre. Acredito que desmaia, adormece, entra em coma... Mas morrer, morre não, hein!
Guardo-os aqui comigo. Alguns não vejo mais, seja por falta de contato, distância, ou apenas rumos traçados em diferentes sentidos. Tenho marcas, lembranças e sentimentos bons.
Sei que vivi cada amor, entreguei-me, passei por cima de medos e dúvidas.
Não importa tanto o fim que tive com cada um. Gostoso ter descoberto, desde criancinha, o que é amar. Ter vivido isso, sentido ao longo dos anos, até aqui.
Quero continuar amando pela vida afora, sendo amada também. E se algum amor adormecer, vou seguir meu rumo, hoje já sem tanto me culpar, pois amor de dois, é construído por dois. Novos dias virão.
É... A esperança e a paciência da Fernandinha, continuam aqui.
Beijos nostálgicos.

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